Depois de correr 17 quilômetros da Meia Maratona Golden Four Asics, entre o Recreio dos Bandeirantes e São Conrado, no Rio, o administrador de empresas Cristiano Braga Goldenberg sofreu uma parada cardiorrespiratória e caiu na pista, sem pulso e sem respirar. O corredor só está vivo para contar essa história, que foi levada ao ar até pela televisão, porque o cardiologista Bruno Bussade, que também corria, começou a fazer a massagem cardíaca para tentar reanimar Cristiano.

“Não foi nada fácil nem rápido”, explica Cristiano, “pois a massagem é um esforço tão intenso que, quando o cardiologista ficou exausto, foi substituído por dois outros médicos”. Eles também eram corredores que, orientados por Bussade, continuaram a fazer as manobras de ressuscitação por 16 minutos, até que chegasse a ambulância com o desfibrilador.
Cristiano Goldenberg, que tem 40 anos e é administrador de empresas, acha que foi um verdadeiro milagre contar com a presença de alguém que sabia fazer ressuscitação. Sabendo da carência de gente capacitada para as emergências no Brasil, resolveu fazer também ele o curso TECA L, para leigos, pelo qual a Sociedade Brasileira de Cardiologia começa a fazer treinamentos por todo o país.

O administrador de empresas Cristiano Braga Goldenberg

Um dos idealizadores e coordenador do TECA na SBC, Manoel Canesin, reconhece que Cristiano teve muita sorte. Ao contrário dos países desenvolvidos, o Brasil tem pouquíssima gente capacitada a fazer as manobras de ressuscitação com alta qualidade”, diz ele. A SBC está organizando cursos de treinamento para leigos, justamente para aumentar a possibilidade de recuperação de quem tem uma parada cardíaca num estádio, numa rodoviária, numa corrida, como nesse caso, ou mesmo no escritório.

A sobrevida do paciente depende da velocidade e da qualidade do atendimento prestado pelo leigo”, até que chegue o desfibrilador ou um enfermeiro treinado, completa. Por isso a necessidade de construir o que chama de “Corrente Brasileira de Sobrevivência”. Para Canesin, embora Cristiano tenha feito exame médico prévio ao início de seu treinamento como atleta, inclusive com teste ergométrico, há casos em que isso não basta para identificar o risco de uma taquicardia ou fibrilação ventricular, que possivelmente atingiram o atleta.

O cardiologista Bruno Bussade

Corrida com o médico

Recuperado, Cristiano conta que corre desde 2008, treina duas vezes por semana e, apesar da parada cardiorrespiratória, não vai deixar de correr. “Um desafio que já está combinado é que vou fazer a mesma corrida, a Golden Four Asics, no ano que vem, e vou correr ao lado do médico que me salvou”. Para ele, a publicidade em torno do problema que enfrentou é positiva, “pois vai convencer milhares de brasileiros da necessidade de conhecer a técnica de atendimento de uma emergência cardiovascular”, lembra.

Elas podem acontecer em qualquer momento, sem aviso, em casa, no trabalho, no lazer, e a sobrevivência vai depender da presença de um “anjo” que saiba fazer a massagem cardíaca. A massagem bem feita, explica Manoel Canesin, é intensa, a palma da mão do ressuscitador deve forçar o tórax a baixar entre 4 e 5 centímetros e a frequência de cada movimento é alta, de 100 compressões por minuto. É preciso força, paciência e concentração, completa, mas o prêmio vale a pena: é uma vida humana.

Encarte publicado no Jornal SBC 155.  Junho 2015

 

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